Michael Ashmore encontrou uma mancha escura no Apple Maps em 2020. Agora, uma expedição atravessou cinco dias de mar para examinar o que aparece naquela imagem. Há um detalhe incomum nessa história: o próprio homem que chamou atenção para o objeto já deixou de defender a hipótese de que seja o avião de Amelia Earhart.

O grupo de 17 pessoas chegou a Nikumaroro, atol de Kiribati no Pacífico, na segunda-feira, 12 de outubro, após 830 milhas náuticas desde Tarawa. A busca é liderada pelo Archaeological Legacy Institute (ALI), com apoio da Universidade Purdue.

O alvo ganhou o nome de “Objeto Taraia”. O boletim da Purdue de 12 de outubro não apresentava identificação do objeto submerso. O ALI aposta no avião; pesquisadores que já exploraram a lagoa veem na imagem algo bem menos extraordinário: uma árvore.

A mesma imagem, duas interpretações

Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital) Sondagem hipotética; não representa um achado.

O ALI, organização sem fins lucrativos de mídia que produz o Archaeology Channel, reuniu 26 imagens de satélite de 2009 a 2021, mais registros do Google Earth e uma imagem comercial de 2026. Na página em que defende a hipótese, o instituto afirma acreditar que é “muito provável” que o objeto seja o Lockheed Electra 10-E de Earhart, e diz identificar uma mancha branca compatível em fotos aéreas neozelandesas de 1938.

A revista National Geographic, que ouviu os dois lados em reportagem de 2 de outubro, descreve essa marca de 1938 como uma “mancha branca indeterminada”. Pela estimativa do ALI, o objeto estaria a cerca de 3 metros da margem da lagoa, sob apenas 1,5 metro de água na maré baixa, mais uma camada de sedimento de espessura desconhecida.

A mudança de posição de Ashmore foi registrada pela National Geographic: em seu site, a imagem original do objeto ganhou um carimbo vermelho com a palavra “Debunked”, desmentido.

Primeiro, descobrir o que está sob o sedimento

Segundo o boletim da Purdue de 12 de outubro, o primeiro dia em terra, terça-feira no horário local, estava previsto para abrir trilha, instalar boias e montar bases. Segundo esse planejamento, o trabalho na península de Taraia começaria na quarta-feira, 14 de outubro, hora local. Nikumaroro está 17 horas à frente da costa leste dos Estados Unidos.

O método é por etapas: percursos sistemáticos sobre a área, magnetômetro, sonar, uma sonda hidráulica para tocar o que está sob o sedimento e, se necessário, uma draga para remover areia. O Electra era quase todo de alumínio, que não é magnético, mas cabos de aço e outras peças poderiam dar leitura ferrosa, explica a universidade.

A ligação da Purdue com o caso é antiga: Earhart foi professora visitante da universidade a partir de 1935, e um fundo da Purdue pagou o Electra em 1936. Agora, segundo a National Geographic, a universidade ofereceu ao ALI uma linha de crédito de US$ 500 mil, a ser devolvida independentemente do resultado, além de apoio logístico. Rick Pettigrew, diretor do ALI, define sucesso como “identificar corretamente o que o Objeto Taraia é”. Se for o avião, a escavação completa ficaria para o ano que vem.

Os pesquisadores que já passaram por ali discordam

A hipótese de que Earhart pousou em Nikumaroro e morreu ali como náufraga foi construída pela TIGHAR, grupo americano que liderou ou participou de mais de uma dezena de expedições ao atol em três décadas, sem achar nada definitivo. É justamente esse grupo que não acredita no Objeto Taraia.

Ric Gillespie, diretor da TIGHAR, e colegas olharam a imagem e viram uma palmeira ou um pândano com a bola de raízes. Eles já haviam vasculhado aquela área da lagoa em 2001 e 2007, com mergulhadores e detectores. “Tenho dificuldade em acreditar que, se aquele objeto estivesse lá, não o teríamos visto”, disse Andrew McKenna, da TIGHAR, à National Geographic. Em entrevista à agência Reuters, reproduzida pela emissora belga VRT, Gillespie resumiu: “Eu adoraria achar esse avião. Mas isso não vai acontecer.”

A maioria dos especialistas, lembra a VRT, considera mais provável que o Electra tenha caído no mar perto de Howland, há mais de 89 anos.

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