A política tem uma característica que a diferencia das ciências exatas: ela é feita por pessoas. E pessoas não se comportam necessariamente de acordo com modelos matemáticos, tendências históricas ou projeções estatísticas. A vitória de Lula em 2026 é uma demonstração dessa realidade. Tudo aquilo que parecia improvável aconteceu ao mesmo tempo. E foi justamente a combinação de movimentos extraordinários que produziu um resultado que poucos imaginavam possível. Lula venceu com 64,2 milhões de votos, 51,79% dos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Uma diferença superior a 4,4 milhões de votos, construída depois de um primeiro turno em que o candidato da oposição havia terminado à frente. Não foi uma simples transferência de votos entre candidaturas. Foi uma mudança profunda no comportamento do eleitorado.A singularidade dessa eleição está também na relação entre aprovação de governo e intenção de voto. Lula conseguiu vencer, apesar de enfrentar uma desaprovação superior à aprovação de sua gestão nas pesquisas da reta final. Uma situação extraordinária para um presidente que buscava a reeleição. A vitória mostrou que, para uma parcela decisiva dos brasileiros, avaliar negativamente um governo não significava necessariamente desejar sua substituição pelo adversário apresentado.A primeira grande explicação está na participação eleitoral. Desde a redemocratização, o Brasil construiu um padrão relativamente previsível: a abstenção costumava crescer entre o primeiro e o segundo turno. A exceção havia ocorrido em 2022, quando a redução foi de apenas 0,36 ponto percentual. Em 2026, a abstenção caiu de 21,08% para 19,22%, uma diminuição de aproximadamente 3 milhões de eleitores ausentes. Uma redução de quase 10% no contingente de abstencionistas, algo sem precedentes em magnitude nas eleições presidenciais recentes.Mas o fenômeno não terminou aí. A eleição também registrou uma redução expressiva de votos brancos e nulos. A proporção conjunta caiu de 4,77% para 3,24% dos votos depositados nas urnas. Em números absolutos, foram aproximadamente 1,8 milhão de votos brancos e nulos a menos. Historicamente, a redução dos votos inválidos entre os turnos não costuma vir acompanhada de uma queda igualmente expressiva da abstenção. Em 2026, os dois movimentos aconteceram simultaneamente.O resultado foi uma expansão extraordinária dos votos válidos. Lula conquistou mais de 10 milhões de votos adicionais entre os turnos, enquanto Flávio Bolsonaro cresceu aproximadamente 3,7 milhões. De cada dez novos votos válidos atribuídos aos dois finalistas, mais de sete ficaram com o presidente. Uma distribuição que contrariou as expectativas de transferência eleitoral e alterou completamente a aritmética da disputa.Os grandes centros urbanos ajudam a compreender a dimensão da mudança. São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte e Curitiba registraram uma expansão importante da votação de Lula. Nas três maiores capitais do Sudeste, São Paulo, Rio e Belo Horizonte, seu crescimento percentual médio ultrapassou sete pontos. Somente na capital paulista, o presidente conquistou centenas de milhares de votos adicionais. No conjunto do estado de São Paulo, foram mais de 2,1 milhões de novos votos. Minas Gerais acrescentou mais de um milhão, enquanto o Rio de Janeiro contribuiu com aproximadamente 800 mil. O Sudeste, região onde o presidente enfrentava dificuldades importantes, tornou-se decisivo para sua vitória.Outro fenômeno que merece investigação está nos municípios de maior vulnerabilidade social. Nas localidades mais dependentes de programas de transferência de renda, Lula ampliou sua votação e consolidou percentuais expressivos. Em Serrano do Maranhão, por exemplo, passou de 86,72% para 90,16% dos votos válidos. Em Cachoeira Grande, também no Maranhão, avançou de 76,28% para 80,92%. Em Rodelas, na Bahia, saltou de 78,26% para 81,90%. São municípios onde a presença do Estado e os programas sociais têm peso relevante na vida cotidiana.É possível que o chamado pacote de bondades anunciado pelo governo tenha contribuído para esse movimento. Medidas como a ampliação do Bolsa Família e os benefícios direcionados a determinados segmentos econômicos apresentavam aprovação popular, mas não demonstravam, nas pesquisas, capacidade proporcional de conversão em votos. O resultado eleitoral coloca essa hipótese novamente no centro do debate. Não é possível estabelecer uma relação automática de causa e efeito, mas tampouco se pode descartar que a expectativa de benefícios tenha influenciado a decisão de parte do eleitorado, especialmente nas regiões de maior vulnerabilidade.Curiosamente, o maior crescimento percentual de Lula ocorreu nos municípios menos dependentes do Bolsa Família, onde avançou 7,2 pontos entre os turnos. Isso mostra que a explicação não está restrita à política social. O presidente conseguiu ampliar sua votação tanto em localidades de elevada dependência dos programas governamentais quanto em centros urbanos e municípios economicamente mais diversificados.O terceiro elemento está na transferência dos votos das candidaturas eliminadas. A expectativa de que os eleitores da terceira via migrariam majoritariamente para Flávio Bolsonaro não se confirmou de maneira uniforme. Goiás é o exemplo mais revelador. Ronaldo Caiado conquistou uma votação expressiva no primeiro turno, mas Lula foi quem registrou o maior crescimento percentual no estado, avançando 9,28 pontos, contra 6,06 pontos de Flávio. Foi justamente em Goiás que o presidente registrou sua maior expansão proporcional no país.A história eleitoral mundial oferece exemplos de resultados que desafiaram expectativas consolidadas. Harry Truman, em 1948, derrotou Thomas Dewey quando boa parte da imprensa americana já tratava sua derrota como praticamente certa. Em 2016, Donald Trump venceu Hillary Clinton contrariando a maioria dos prognósticos eleitorais. Em 2019, na Austrália, Scott Morrison conseguiu uma vitória que surpreendeu pesquisas e analistas. São episódios distintos, mas unidos por uma lição: a probabilidade de um acontecimento não equivale à impossibilidade de seu contrário.A própria movimentação jurídica no dia da votação revela como as expectativas haviam condicionado a interpretação dos acontecimentos. O pedido de prorrogação do horário eleitoral, inicialmente apresentado pela campanha de Lula, parecia, naquele ambiente, uma possível preparação para questionar uma derrota considerada provável. Uma espécie de bengala jurídica para uma candidatura que enfrentava dificuldades. O episódio ilustra o quanto a percepção de derrota havia se instalado no debate político.A vitória de Lula não significa que a insatisfação com o governo tenha desaparecido. Tampouco representa uma conversão generalizada do eleitorado ao lulismo. O que aconteceu foi uma combinação excepcional de mobilização, redução da abstenção, diminuição dos votos inválidos, crescimento nas grandes cidades e uma transferência de votos mais favorável ao presidente do que a projetada.A grande lição de 2026 está justamente na necessidade de separar tendência de destino. Os modelos estatísticos continuam indispensáveis para compreender o comportamento coletivo, mas não conseguem eliminar a imprevisibilidade das decisões individuais. Quando fenômenos historicamente raros acontecem simultaneamente, até as projeções mais consistentes podem ser superadas pela realidade.Lula venceu porque a eleição deixou de seguir os padrões que haviam orientado sua interpretação. Não foi apenas uma virada de votos. Foi uma mudança na própria dinâmica de participação e escolha do eleitorado.A política continuará sendo estudada por números, tendências e probabilidades. Mas, no fim, será sempre decidida por pessoas. E pessoas são capazes de produzir aquilo que a matemática considera improvável.✅Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp

Eleição é humana, não exata: como Lula construiu uma vitória improvável
Eleição é humana, não exata: como Lula construiu uma vitória improvável · Imagem: Source: noticias.r7.com
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Lula discursa na Avenida Paulista, em São Paulo, após ganhar as eleições REUTERS/Alexandre Meneghini — 25.10.2026
Lula discursa na Avenida Paulista, em São Paulo, após ganhar as eleições REUTERS/Alexandre Meneghini — 25.10.2026 · Imagem: Lula discursa na Avenida Paulista, em São Paulo, após ganhar as eleições REUTERS/Alexandre Meneghini — 25.10.2026
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